Brasília em um Único lugar.

20.04.2018

A ESTÓRIA DE ANTÔNIO RODRIGUES NETO

foto livro I 1 A ESTÓRIA DE ANTÔNIO RODRIGUES NETO
PAU, PEDRA, SONHO, e CERRADO…

(ESCRITA POR SUA FILHA, ANTÔNIA REJANE BEZERRA RODRIGUES)

BRASÍLIA
OUTUBRO DE 2014
“NO PRINCÍPIO, ERA O ERMO…
ERAM ANTIGAS SOLIDÕES SEM MÁGOA,
O ALTIPLANO, O INFINITO DESCAMPADO…
NO PRINCÍPIO ERA O AGRESTE:
O CÉU AZUL, A TERRA VERMELHO-PUNGENTE
E O VERDE TRISTE DO CERRADO.”
(VINÍCIUS DE MORAES, SINFONIA DA ALVORADA)
PAI AMOROSO, FILHO, IRMÃO, TIO E, PRINCIPALMENTE, UM AVÔ QUE SEMPRE SOUBE INCENTIVAR SEUS NETOS, DO MAIS VELHO AO MAIS NOVO.
NESTE RELATO DE MINHA AUTORIA TENTAREI DE CERTA FORMA, PRESTAR ESSA HOMENAGEM a UMA PESSOA DE CORAÇÃO IMENSO, SORRISO E RISADA CONTAGIANTES E ALMA DE CAVALEIRO, QUE SEQUER PRECISOU DE UM CAVALO… E SIM DE UM PAU DE ARARA. MEDIANTE O INÍCIO DA COLETA DE DADOS PARA O EMBASAMENTO TEÓRICO DESTA OBRA, PUDE AVERIGUAR QUE A ESTÓRIA DESTE HOMEM NÃO SE REFERE SOMENTE AOS FATOS RELACIONADOS EM SI, MAS EM SABER QUE A VIDA E A LUTA DE ANTÔNIO RODRIGUES NETO SE SOMAM TAMBÉM À VIDA DE UMA MULHER. ELA QUE, COM OITO FILHOS SOUBE SER, COMO NINGUÉM, O PILAR, A MOLA PROPULSORA, A BASE DE NOSSA FAMÍLIA, ENQUANTO ELE VIVIA E VIVE, DIA APÓS DIA, A CONSTRUÇÃO DO SONHO. (SONHO ESSE QUE, ATÉ HOJE, ARDE EM SEU PEITO).
A NOVA CAPITAL DO PAÍS, QUE NÃO SERIA MAIS O RIO DE JANEIRO E SEU PALÁCIO DO CATETE, E SIM UM QUADRADO PERDIDO ENTRE O CERRADO E O ESQUELETO DE OBRAS ARQUITETADAS PELO MESTRE OSCAR NIEMEYER.
E VIVA BRASÍLIA ! E VIVA A NOSSA FAMÍLIA!

A SAGA DE UM HERÓI

1960. Janeiro. Eis que faltavam exatos três meses e alguns dias para a inauguração da intitulada “A nova capital do país”, da República dos Estados Unidos do Brasil. Ela que surgiu de um sonho de Juscelino e de um traço do arquiteto. Mas era preciso ter pressa, pois autoridades importantes estariam a vir para o momento mais importante da História do Brasil e as obras ainda não estavam praticamente prontas. Antônio estava no Rio de Janeiro quando escutou a notícia pelo rádio e também pela televisão, que a capital do país sofreria mudança para um lugar situado no Planalto Central, próximo a Goiânia.
À medida que a tão esperada data se aproximava, a ansiedade chegava junto na bagagem dos operários que aqui desembarcaram para que o “sonho” acontecesse. Nesse mesmo mês chegou um homem, trazendo na mala uma muda de roupa e uma rede, em um percurso de dezesseis dias de viagem, saindo de Ipu, no estado do Ceará, em um pau de arara (“Viajando no pau de arara, só carrega a coragem e a cara”, música que os viajantes cantavam na viagem). Ele veio solteiro e, chegando aqui, teve a companhia de seu “sogro” Tomaz e seu “genro” Edson. Com a sua “mulher” ficou a promessa que, assim que juntasse o dinheiro necessário, enviaria por carta a passagem de avião ( naquela época , a Vasp já era a principal companhia de aviação de nosso país). Ele, juntamente com outros operários, foi um dos responsáveis pelo serviço de carpintaria do Hospital de base de Brasília. Hospital esse que, anos mais tarde, viria a ser lugar de um acontecimento importante e doloroso para a nossa família.
Ele não quis comparecer na foto do painel que hoje ilustra o Hall de entrada do hospital, se dizendo tímido para isso, se escondeu atrás dos pilares do prédio em construção. Ele nunca quis aparecer. Até hoje é assim, prefere continuar no anonimato, até a minha idéia de escrever o relato de sua estória. De nossa estória.
Brasília inaugurada. Antônio, Tomaz e Edson voltaram para o Ceará, sendo que Antônio participou da festa de São Sebastião, o padroeiro de sua cidade. Depois de um tempo, ele foi ao seu estado de origem novamente e, entre idas e vindas, entre a “ponte aérea” Brasília- Ipu,veio o casamento, se casaram aqui contra a vontade de alguns e sobre a benção do Dr. Jorge Duarte de Azevedo,e as testemunhas João Rodrigues da Silva e Severino Inácio da Silva . Ele, filho de Manoel Ferreira de Abreu e Antônia Rodrigues de Sousa (o meu nome é uma homenagem a minha avó paterna) e ela, filha de Tomaz Bezerra de Menezes e Francisca Moreira do Vale. Entre as delimitações expressas na certidão de casamento constava a seguinte observação: “NO ATO DO CASAMENTO FORAM LEGITIMADAS 2 ( DUAS) FILHAS DO CASAL DE NOME ANA NILCE BEZERRA RODRIGUES E SANDRA MARIA BEZERRA RODRIGUES “. Em uma das viagens, como a Ana Nilce era filha de mãe solteira, uma criança acometida pelo sarampo foi a sua salvação. O nome dessa criança? Sandra Maria, eis que o nome da Sandra foi uma homenagem à criança que salvou a vida da Ana Nilce.
Ele, um homem que nunca fugiu de suas obrigações e atribuições, sempre com pulso firme, começava a construir a sua “estória” e entre madeiras e sonhos, venceu a esperança de dias melhores.
Na volta, ele que tinha “residência” por aqui, agora também tinha companhia. Mediante isso, ela com a “cara e a coragem” abriu um restaurante localizado na quadra 110 sul. Ela, que sempre trabalhou e nunca deixou de se sustentar, o abriu para atender aos operários das obras e, juntamente com a comida deliciosa que preparava, surgiram pedidos de corte e costura e, então, ela com uma ajudante deram conta de todo os trabalhos, satisfazendo a sua clientela e se tornando popular entre eles. (com a Ana Nilce e a Sandra a tiracolo).
E assim começa a narração dessa estória: a chegada de Antônio (construção), quatro anos após, a chegada de Nilza (“a carta”), a vila do Iapi, o centro de erradicação de invasões, e tantos outros relatos (e fatos) que, até hoje, estão vivos na memória de um homem o qual devo toda a minha fidelidade (e todo o meu amor, carinho e admiração). Ele que, quando está chegando a qualquer lugar que eu estiver, dou um grito: “Pai!”. Enquanto Deus permitir, continuarei dando o meu grito todas as vezes as quais o herói passar. (E como será quando eu não puder mais gritá-lo?).
A você, meu anjo de guarda noturno, o meu sincero muito obrigado. Por tudo. E para sempre.

A SAGA DE UM HERÓI II (E UMA HEROÍNA)

Com o sol, poeira grossa. Com chuva, lama por todo lado. Nada de parque, centro comercial, restaurante (a não ser o do SAPS) ou clube esportivo. Muito menos show musical ou peça teatral. Só o que existia era trabalho… Muito trabalho a ser feito! Assim era Brasília há exatos cinqüenta para cinqüenta e um anos, poucos meses antes de sua inauguração. Apesar de ainda não existir explicitamente, implicitamente falando Brasília já existia, sim. Eram sessenta mil operários trabalhando no “canteiro de obras a céu aberto”.
Dormindo nos acampamentos das construtoras, em colchões duros, depois de um dia estafante e estressante, os operários se acotovelavam enquanto pensavam em como seria mais um dia de trabalho. Antônio e seus companheiros estavam preocupados, pois Brasília e suas obras estavam muito atrasadas, e o prazo estabelecido para que o tão esperado “21 de abril de 1960” acontecesse estava se aproximando.
Na Cidade livre, hoje Núcleo bandeirante, os operários eram recrutados para serem fichados em diversas empresas construtoras e na NOVACAP (a matrícula de nosso herói era a nº 44). Anos depois, a localidade tinha armazéns de secos e molhados, casas de tecidos, restaurantes, barbearias, tinturarias, marcenarias, açougues, entre outros. Ah! Entre as novidades, mais uma surgiu: o colchão com molas!
E os prédios? Bem, eles estavam sendo construídos, mas não estavam “construídos”. Os principais edifícios, que houve são o cartão-postal de muitos visitantes, ainda nem tinham saído do papel. E os principais prédios que hoje sediam os “três poderes” existentes (Executivo, Legislativo e Judiciário) ainda estavam em fase de acabamento. O medo e o receio dos operários com relação à finalização das obras foi um dos principais responsáveis pela “demora” no processo final. Muitos se julgavam incapazes de terminar, mas o fator psicológico foi o que mais prejudicou. Eles, que chegaram somente com “sonhos” na bagagem, sentiram na pele o que foi estar longe da família, da mulher amada, dos parentes e amigos. Enfim, uma combinação de fatores ajudou a atrapalhar o prazo determinado. E foi assim, até que o dia chegou.
Juscelino Kubitschek e Lúcio Costa acompanharam a construção, prédio por prédio, etapa por etapa. Antônio os presenciou por muitas vezes entre os operários. Eles vinham duas vezes ao dia conferir de perto as “obras” e, muitas vezes, conversavam com os serventes. Simpatia e humildade eram características indeléveis do presidente, sendo essas ausentes nos políticos da atualidade. Eleito presidente em 1956, Juscelino já havia prometido, em discurso no ano anterior, que haveria a mudança da sede da capital federal, nessa época ainda sendo no Rio de Janeiro no Palácio do Catete. Mas somente em 1960 que o herói Antônio desembarcou aqui, vindo de um lugar aonde a sabedoria era sua maior “riqueza”. Quando aqui chegou, ele percebeu que os dias passariam devagar, que as horas seriam suas maiores inimigas e a saudade. Ah! A saudade. Nilza estava a sua espera, trabalhando em uma loja de tecidos e recortes. Ela, que nunca conseguiu ficar parada, já era dona de sua própria vida, sempre falante e dando conselhos. Até hoje é assim.
A vila do Iapi foi uma das primeiras “cidades” de Brasília. Anos após a inauguração, Antônio permaneceu na agora recém- inaugurada capital, indo ao seu estado de origem esporadicamente, para a festa do padroeiro de sua cidade, e juntando o seu sacrificado e suado dinheiro para que Nilza viesse, em definitivo, residir com ele. Esperança de dias melhores o impulsionou a não desistir de seu projeto: a construção de uma vida estabilizada em conjunto com Nilza e com os filhos dessa união.

BRASÍLIA

Nome advindo de um folheto anônimo, ele demorou a sair do papel. Depois disso, passou a ser fato em dispositivo legal (constituição de 1891), mas o nome em questão deveria vir a ser usado para a nova capital, e não para a que já existia (Rio de Janeiro). Ele deveria vir a ser usado para que, conforme a constituição fosse instituída a nova capital, o nascer de uma nova esperança, a prosperidade nascendo no planalto central da República. (Nome esse que surgiu anos após, na personificação de um carro que também fez parte da família).
Em seu governo (Período de 1956 a 1960), Juscelino criou o plano “Cinqüenta anos em cinco” e, mediante esse plano de metas, foi idealizada a construção da sede da capital do país. A utopia se concretizou, virou uma cidade que hoje é referência de status, poder… E corrupção. Há pessoas honestas, há pessoas que levantam todos os dias com o pensamento de que dias melhores hão de vir, como o herói- construtor- carpinteiro Antônio Rodrigues Neto, e todos os candangos e pioneiros dessa cidade que até Djavan cantou (“Céu de Brasília, traço do arquiteto. Gosto tanto dela assim…”).
Brasília dos sonhos de Antônio, das noites em que tinha apenas a lua e as estrelas como cobertor, dos dias de labuta de pioneiro da construção mesmo mediante tantas pedras que surgiram em meio ao tortuoso caminho: a falta de infraestrutura, o surgimento e agravamento de doenças entre os operários, a ausência de transporte (muitos andavam quilômetros até chegar ao destino desejado), entre outros fatores que surgiram como barreiras no progresso da capital. Mas herói que é herói não se deixa abater, não foge à luta, não desanima, sendo essas características peculiares de nossa família.
Ela que foi o seio de nossa família, mesmo com um de seus membros “importada” do Ceará. Que, em 1964, recebeu Maria Nilza Bezerra Rodrigues de braços abertos, depois que Antônio enviou “a carta”. A capital federal de Ana Nilce, Sandra Maria, Francisca Meire, Ana Márcia, Clayton, Cleilson, Antônia (essa que vos fala, rs) e Fabianne Régia , todos são Bezerra de mãe e Rodrigues de pai ( um Rodrigues entre nós se sobressaiu, se destacou com o sobrenome que virou o símbolo de luta, fé, garra e determinação).
Em 1964, Nilza e Antônio, enfim, se tornaram uma família, pois já tinham um ao outro, já estavam juntos aqui eles e suas duas filhas mais velhas (Ana Nilce e Sandra). Nessa época foram morar na vila do Iapi, lugar aonde os operários, anos mais tarde após a inauguração, vieram residir com suas famílias.
Eles permaneceram nela até o ano de 1971 quando a vila foi extinta para vir a ser criado o CENTRO DE ERRADICAÇÃO DE INVASÕES, sendo esse criado a partir da campanha de erradicação de invasões, com a remoção das populações localizadas nos assentamentos primitivos e das primeiras favelas que se formaram logo em seguida, em torno do plano piloto.

CEILÂNDIA

Centro de Erradicação de Invasões. As primeiras “mudanças” da Vila do Iapi para a nova cidade- satélite ocorreu em 1971, quando houve o deslocamento dos primeiros barracos da vila para a ala norte da nova cidade, conhecida como Ceilândia Norte. Antônio e Nilza foram uns dos primeiros a se mudarem para a “ala norte” da cidade.
Antônio, mais uma vez, teve que se ausentar do seio de sua família (Nilza, Ana Nilce, Sandra, Meire e Ana Márcia, ela com poucos meses de vida ficaram seis meses na Vila Tenório, sendo essa fixada nas proximidades da Vila do Iapi) para construir o barraco que se transformou em casa e viria a ser a residência fixa da família por anos. Muitos acontecimentos também presenciados pela pessoa que narra essa estória fazem parte da memória dos “Bezerra” e “Rodrigues”. O cadastramento feito na vila do Iapi anteriormente fora feito mediante os que chegaram primeiro para a construção de nossa cidade, e eis que Ceilândia foi construída por “etapas”: Primeiramente a Ceilândia Norte, logo após a Ceilândia Centro e, por último, a Ceilândia sul.
Dificuldade nunca foi o adjetivo usado pela família Bezerra e Rodrigues, e sim estímulo para realizar sonhos, derrubar barreiras e, então, vencê-las. Criar oito filhos, sendo quatro nascidos na fase de transição mais difícil (entre a 110 Sul e a Vila do Iapi) e os quatro mais “novos” nascidos em Ceilândia, em uma fase mais “tranqüila”. Ceilândia de inúmeros acontecimentos que ainda perduram em minha alma e coração.
A minha Ceilândia querida de dezenove anos vividos, sendo lá que tive meus primeiros passos, os dentes de leite, a queda no centro de ensino nº 05 (agora Centro de Ensino Fundamental 20), os anos de aprendizado nº 02 ( ensino médio)da festa dos quinze anos, a paralisia facial aos dezesseis, o nascimento do André, o primogênito (ele conseguiu ser o primeiro em tudo ), que nos encheu de alegria com seu sorriso e seu brilho no olhar(logo após vieram Adrisa, Paulinha…). A Ceilândia de minha infância (Quando a mãe e o pai iam trabalhar no ECC e os quatro pirralhos ficavam vigiados pelas quatro irmãs mais velhas), as intermináveis idas à padaria em uma mesma manhã, as quedas no parque da cidade. Enfim, se eu ficar aqui contando tudo o que aconteceu em Ceilândia, somente uma palavra resume esse sentimento em meu peito: Gratidão. Gratidão por ter Antônio como pai e Nilza como mãe. Gratidão por ter Ana Nilce, Sandra, Meire, Márcia e Fabianne como irmãs e Clayton e cleilson como irmãos. De ter André (nossa estrela lá no céu), Adrisa, Paulinha, Juninho, Caio, Andressa, Enzo,Gabriel, Miguel , Duda e Rafa como sobrinhas e sobrinhos. E os cunhados!!! Zezinho, Augusto, Antônio e Juraci ( o único nome unissex que conheço). Por minha família ser como è: resultado da “construção”. A Ceilândia que eu sinto amor e ódio ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. A Ceilândia da chegada não foi a mesma da saída: a de 1971 não estava a mesma de 1996, vinte e cinco anos separam sonho , realidade … E desilusão. ( Sete anos após a chegada que eu nasci!). Muitos amigos continuam por lá, muitos já se foram e muitos… Bom, muitos já não se encontram, e nem se desencontram. E onde está nosso herói- construtor- carpinteiro nessa estória? Construindo dia a dia, etapa por etapa o barraco, a casa da Ceilândia e, posteriormente, a casa da colônia e me ajudando a construir a estória do vencedor Antônio Rodrigues Neto. Na construção das casas soube ser paciente e bondoso (sempre criterioso e cauteloso nas escolhas dos ajudantes). Na construção da família, escolheu a parceira de uma vida inteira, alguém que conhecia em sua cidade e sempre foi trabalhadora, batalhadora é seu adjetivo. O Ceará era pequeno demais para vocês dois! E o quadradinho cercado de cerrado por todos os lados também! A estória de vocês estará, neste presente momento, registrada pela minha pessoa para a prosperidade. Mediante a coleta de dados feitos por mim tentei, direta e indiretamente, mostrar a real intencionalidade deste relato: a vida de um homem (e uma mulher) que, sem nenhum poder aquisitivo, chegou aqui em um pau de arara, em um pau de arara meu povo! Sabe o que isso significa? Na vida, o que realmente importa é a “cara e a coragem”!

“13 de março de 1963
Antônio, um jovem de vinte e poucos anos, tinha vizinha: uma mulher jovem, bonita, que trabalhava em uma loja de renome da cidade…
Eles eram conhecidos, mas sequer se falavam…
Um dia, o destino quis, e assim se fez,
Eles se casaram, constituíram uma família.
Família essa a qual eu tenho a sorte de fazer parte, e tantos outros mais a qual eu posso agradecer.
Oito filhos, onze netos.
Onze netos sim, porque não?
Um deles está na glória, no céu, sendo nosso anjo guardião.
Pai e mãe, a estória de vocês se confunde com a nossa…
A minha mãe queria estudar em colégio de freira, só que a sua mãe (minha vó) não permitiu…
Ainda bem, pois ela é professora graduada na escola da vida…
O meu pai não teve instrução, e nem precisou, pois ele tem uma gargalhada no rosto e um grande coração. Esses sim são seus maiores aprendizados, os seus maiores ensinamentos, a humildade.
PAI E MÃE, OBRIGADO.
Obrigado por nos ter feitos seus filhos, filhos que erramos, filhos que acertamos, filhos que aqui estamos:
Com princípios, valores, pessoas de caráter, e sempre cultivando o amor e o respeito ao próximo…
Os netos foram e serão o prolongamento dessas lições.
A vida continua, e a escola de vocês também.
Que Deus nos abençoe, e os anjos digam amém.”

(Texto feito e lido pela minha pessoa na missa em celebração aos Cinqüenta Anos de Casamento de Antônio e Nilza).

O COMEÇO, O RECOMEÇO, E O FIM…
O dia o qual me despedi de minha Ceilândia eu lembro como se fosse hoje: Em 1996, um champanhe sendo estourado na porta de casa e meu coração em frangalhos. Enquanto estava eu, olhando parede por parede, muitos comemoravam a saída como um gol de copa do mundo. Minutos infinitamente duradouros que mostram o famoso ditado que diz “Só se dá valor nas coisas quando as perdemos”. Maldito ditado.
E lá se foram três anos (que pareciam uma década) em uma casa que nem parecia casa, na QNF 21 CASA 05. Foram dias, noites, meses e anos que eu senti como se estivesse em um iceberg, esperando o momento de naufragar. Em mais um dia atípico, aonde as horas paravam, eis que abro a caixinha das correspondências e encontro nela uma cartinha que, até hoje, quando a leio, é como se uma flecha transpassasse meu coração. Nela continha a seguinte mensagem:
“Olá pessoal? Como está aí? tudo bem? Quem mandou essa carta foi a Dupla André e Adrisa essa carta foi enviada para todos. Remetente: Qnm 08 Conjunto “D” casa 44). Em uma folha simples, eu lia e relia e relia e , quando ainda a releio, parece que o tempo não passou. Todos os dias de minha vida ainda recebo aquela inocente cartinha em minha mãos. Entendi que aquele foi “Um pedido de socorro”, um “grito” para que eles fossem notados, mesmo após a mudança. E o herói??? Bem , nosso herói estava descansando, pois todo herói merece descanso , por menor que seja.
Após esses três anos, mediante negociações, eis que surge a oportunidade de nos mudar para outro lugar, longe dali? O nome do lugar? Colônia agrícola Samambaia, um lugar recém-habitado, onde havia mato e quase nenhuma pista com asfalto. Após três anos de “descanso”, o herói novamente entrará em ação. Finalmente! E ele, em um terreno abandonado no meio do nada, ergue o “Império”, a casa que, até hoje é lembrada como a “ casa do Vô Antônio e da Vó Nilza” , de natais memoráveis , festas animadas e, principalmente, reduto dos netinhos que sempre gostaram e gostam de vir aqui. Me recordo de um natal em que o André disse : “NATAL QUE É NATAL TEM QUE SER NA CASA DO VÔ E DA VÓ”.
Mudamos para a colônia em 2000, eu fiquei em casa da irmã Sandra, a Fabinha,o pai e mãe em casa de Ana Nilce. Foram quase dois anos de “espera”, eu gostava de estar no seio da família de minha irmã, mas nada é comparado á casa da gente, nosso lar, chão, teto… Tamanha espera valeu a pena! O primeiro ano de “residência” foi difícil, mas nosso herói soube como ninguém, construir nosso “castelo”: com o auxílio e assistência do “Batman” ( Manoel cachaceiro) e seu assistente“ Robin”. Domingos e domingos em companhia de Meire, Antônio e os meninos, as visitas dos “meninos” e “meninas”. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, a casa continua sendo local de refúgio de muitos membros da família “Bezerra” e “Rodrigues” (Castro, Bispo, Silva, Rosa, Almeida e Oliveira).
Porém, dois acontecimentos em especial marcaram para sempre a vida dos reis e rainhas desse “castelo”: Primeiramente, o coração de nosso herói, de tão bondoso, se sentiu mal e colocou sua vida em risco. Sendo tudo acontecendo em uma ligeireza que impressionou a todos, ele ficou três meses internado no Hospital de Base de Brasília. Destino estúpido e cruel! Como poderei conceber tal situação? O hospital que o herói ajudou a erguer, eis que recebe a sua “visita”. Foram três infinitos meses os quais as gotas de chuva se misturavam entre as lágrimas de meu rosto, que caiam sem cessar. Nunca havia presenciado tal situação, tendo o homem que Deus confiou como sendo meu pai adotivo, tão fragilizado e doente. Logo ele, que sempre foi um “touro”, em uma maca de hospital. Quando fui visitá-lo pela primeira vez, minhas pernas faltaram quando adentrei pela porta, o seu rosto pálido, suas mãos brancas. Eu só consegui me ajoelhar e chorar. Foi a primeira vez, em toda a minha existência, que presenciei a “Heroína” Nilza abatida e com olhar distante. Ela, que sempre foi uma “fortaleza”, percebeu que não era tão fortaleza assim; também tinha seus momentos de fraqueza e fragilidade.
Eis que o herói retorna aos seus “aposentos”, deixando a família em êxtase. Em polvorosa. O natal de 2011 não foi somente o natal do nascimento de Jesus: foi também o “renascimento” de nosso herói. Coisa mais linda a família toda reunida. O André, o Juninho, o Caio e a Adrisa fizeram depoimentos emocionantes. André e todos nós na expectativa de sua formatura, o Juninho já na Epcar e o Caio seguindo os passos dos dois. Sonhando com a aeronáutica. Sonho esse construído e realizado com árdua luta.
Digo com a mais pura convicção que existe em meu coração: o natal de 2011 foi e será memorável por dois motivos: pelo retorno do “Pai-Herói” e por ter sido o último natal que o “anjo com asas” esteve em nosso convívio. (Se pudesse voltar atrás, certamente teríamos cantado madrugada adentro e não somente até as 03:00 ). Mal saberíamos que restavam poucos encontros para a ida do André para a eternidade. Por isso que momentos existem para serem compartilhados e eternizados. Há um ditado que diz que “Se pudéssemos prever o futuro, com certeza não sairíamos da cama. Nunca”. Esse ditado não existe para a família “Bezerra” e “Rodrigues”: mesmo abatidos e entristecidos, a luta continua. A vida, o bem mais precioso, deve prevalecer. Apesar dos pesares.
Eis que 2012 começa. Ano novo. Novas esperanças. Segundo ano da faculdade. Segundo ano construindo o sonho do magistério. O pai em casa. Estava tudo tão bem. E de repente… Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio. Maio e junho sempre foram meus meses preferidos em todo o ano. Maio pelos “aniversários” e Junho, pelas festas juninas e o meu aniversário. Mas nem tudo seria mais da maneira que sempre foi. Tudo se modificaria. Para sempre.
Em maio, especialmente nos dias 23 e 24, todas as atenções se voltam para três membros da família. Dia 23 sempre foi o dia o qual ficava grudada no telefone esperando o “OI REJANINHA!” do outro lado da linha. Mas o para sempre, sempre acaba. Depois de passar o dia ligando e o coração quase saindo pela boca, eis que escuto a voz mais doce desse mundo inteiro falando “Rejaninha, eu pensei que você estivesse esquecido de mim”. Hoje repito o que disse a você, André: Nem se eu fizesse o maior esforço do mundo eu te esqueceria. Nem se o mar e as montanhas mudassem de lugar, e a lua trocasse de lugar com o sol. Nem se o mundo não fosse mais mundo. “Nunca iria e nunca irei te esquecer”.
Paulinha também de aniversário, que Felicidade! Dois aniversários em um mesmo dia! Nossa família foi duplamente sorteada por Deus! E, no dia seguinte, o aniversário do Enzo. Ainda lembro o Dedé falando para a Ana Nilce antes dele nascer: “Poxa tia, faz uma forçinha. Três no mesmo dia, já pensou?”
Eis que maio acaba. E junho começa. No segundo dia de junho, Andressa surge em minha residência com Márcia para irmos á festa junina da católica. E somente eu e Andressa que fomos. Festinha legal. Festa junina da católica sempre foi uma das melhores festas juninas de Brasília. Veio o domingo e com ele o sono.
Segunda feira dia 4 de Junho de 2012. Dia típico da semana. Dia da preguiça. Dia de preguiça. É só preguiça. Mas, sendo segundo o dia oficial da preguiça, nosso herói nunca perdeu o hábito de acordar todos os dias às seis da manhã, mesmo em um dia comum, mesmo com o dia nublado ou chuvoso. (E nossa heroína nunca perdeu o hábito de retrucar tudo o que nosso herói fala). Herói que é herói nunca dorme no ponto. Como de costume me despedi de pai e mãe para ir ao verdurão, para mais um dia de labuta. Recebendo aos clientes e os recepcionando com o melhor dos sorrisos, mesmo o sorriso enferrujado que sempre desenferruja ao longo do dia. O olho ainda não abriu por inteiro. Enfim, um dia como outro qualquer. Sem nenhuma alteração. E eu que pensava que esse dia seria mais um dia. E eu pensava que seria mais um dia em que o dia seria mais um dia. Engano meu. Engano! Seria o dia que nunca irá se apagar em minha memória. Dia ingrato! Dia que virou noite. Dia que virou escuridão. Dia que meu sorriso se apagou, o choro e soluço vieram e o coração ficou escuro e frio.
Quando o dia pedia o almoço, eis que surgiu uma pessoa. Pessoa essa que ficou incumbida de me dar a pior notícia que alguém nesse mundo merecia receber. Eram 11:30 da manhã quando essa pessoa surgi na porta do verdurão, mais branca que uma folha de papel , mais descompassada que um relógio sem pilha. Quando vi e percebi sua presença, estranhei na hora. Senti que estava algo diferente, e o bibi tinha vindo aqui em casa ficar com a mãe. Que estranho. Estranho e diferente. Depois de “muito relutar e eu insistir, ela disse :“ O André morreu. ”Morreu . Como assim? O que aconteceu?
O dia virou trevas dentro de mim. Eu quis fugir, sumir! Foram vinte e dois anos em companhia da pessoa mais pura e doce que eu pude ter o privilégio de conhecer. E, sorrateiramente, essa pessoa se vai. Nem ao menos pude lhe dar um abraço. Um até logo. Não tive tempo.
Mais uma vez nosso herói entrou em ação com sua força e sabedoria. Como ele soube se portar nessa situação! Demonstrou mesmo ser o homem da casa, o chefe de nossa família. Sua serenidade deve ser a característica que todos da família deveriam ter. Ele soube como ninguém não se deixar abater e ter pulso forte e firme. Quero ser como ele quando crescer. (rsrsrs…). André se foi, mas nossa família resiste bravamente. A saudade ainda dói e machuca. Mas a verdade é que, todos os dias, somos vencedores, pois estamos juntos com o referencial maior, que é Antônio Rodrigues neto. Ele que lutou que carregou o André nos braços (duas vezes). Que soube como ninguém, ser sábio e não se entregar, mesmo nos momentos que o mundo dizia “Não!” Quando a nossa família estava “engatinhando”, ele tinha um conselho, um sorriso, mesmo quando o vi encima de uma maca, situação alheia a vontade de todos. Homem simples, bom, carinhoso, cuidadoso, meu pai , sangue do meu sangue. Adjetivos são tantos que a tarefa de enumerá-los seria completamente inútil! (Herói que é herói não cai, descansa!) Mediante minha tarefa de escrever a sua estória, muitos fatos ficaram no anonimato, na implicitude. Seria tão bom revivê-los! Voltar no tempo. O tempo. Tempo bom e tempo ruim. Tempo que não volta mais. Tempo que não volta atrás. O pai chegou aqui sem nada , e o que ele fez? Construiu uma cidade, uma vida, uma família. Eu faço parte dos dois acontecimentos. E muitas pessoas nem sabem que estão a pisar em um chão que ele pisou primeiro que todos. Quando ainda nem era chão e sim barro batido! Quando Brasília era somente um risco em uma folha de papel. Agora é a cidade- símbolo. Se hoje a família caminha muito será por causa de suas pernas tortas, meu querido pai. (Dedé herdou as perninhas tortas de alicate). Pai de Brasília. Pai dessa terra. Pai desse chão. Pai de meu coração. (E nossa heroína a acompanhá-lo em sua caminhada, cinqüenta e dois anos de uma estrada que tem estórias para contar!)

“Da terra batida, surgiu o amor, do amor surgiu a vida
Vida que segue, vida que é vida.
Um homem e uma mulher, sem nada na bagagem, vieram construir suas vidas na construção de um sonho…
Na construção da capital.
Ele, que com afinco exercia sua profissão, a carpintaria. Assim como José, esposo de Maria.
Maria?
Maria é o nome de minha mãe, de nossa mãezinha. Nome mais que merecido.
Ela, mulher de garra e de fibra, veio com uma criança, na esperança de construir sua vida aqui…
Aqui em nossos corações.
Cozinhando, costurando e passando…
Passando por tantas e tantas dificuldades que a vida colocava em seu caminho, mas o seu otimismo e fé inquebrantáveis fizeram com que ela continuasse..
E ela continua a nos encher de orgulho, com suas lições de vida, seus ensinamentos e suas broncas, afina mãe é mãe.
E ele?
Ele, além de pai, avô e amigo, é herói sem armadura, de uma simplicidade e humildade que contagia todos à sua volta.
Antônio e Nilza,
Pai e mãe,
Avô e avó,
Vocês, em meu coração, são e sempre serão um só!”

( Poema de Antônia Rejane em comemoração aos 49 anos de casamento de Antônio e nilza).

FIM.
OU COMEÇO
OU RECOMEÇO
(COMO QUEIRA).

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