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01.11.2019

“EU PRECISAVA FALAR”

Imagem JPEG 2 “EU PRECISAVA FALAR”
Autor: MARCUS LIGOCKI JR

Em agosto de 2002, “Cidade de Deus” foi lançado e em 2003, já repercutia um estrondoso sucesso de público e de crítica. Coincidentemente, em 2003 cheguei no Rio para cursar a primeira formação executiva em cinema e televisão lançada no Brasil, realizada pela FGV.

Já falei em outro post sobre este período no Rio, mas nunca falei sobre a influência do “Cidade de Deus” sobre minhas escolhas.

À medida que o fim de 2003 se aproximava, fomos instruídos a escolher um tema para o trabalho de conclusão de curso. Diante da grande repercussão do filme, fiquei tentado a realizar uma pesquisa sobre o financiamento do “Cidade de Deus” e convenci os colegas Cláudio Beleli e Fabrício Canavezes a trilharem este caminho comigo.

Primeiro fomos conversar com o Mauricio Ramos que era executivo da VideoFilmes, produtora do Walter Salles. Walter tinha aberto uma janela de oportunidade para a realização do filme através de sua negociação com a Miramax, que desejava realizar com contrato de vários filmes com ele após o sucesso de “Central do Brasil”.

Foi o Maurício quem nos deu o mapa da mina. Na conversa com ele, compreendemos a dinâmica básica do financiamento, realização e distribuição do “Cidade de Deus”. Partimos, então, em busca dos executivos responsáveis.

O encontro seguinte foi com o Bruno Wainer, na época, sócio da Lumière, distribuidora que tinha os direitos de distribuição do filme no Brasil. Na medida em que conversávamos, constatávamos com perplexidade a força desta surpreendente história que não estava nas telas. A narrativa que se apresentava sobre a realização do “Cidade de Deus” competia em força e originalidade com o próprio filme, e sentíamos que havia algo de valioso a ser revelado das entrelinhas da realização desta grande obra.

Estávamos diante de um evento raríssimo. “Cidade de Deus” foi considerado um dos melhores filmes da história e influenciou a toda a indústria cinematográfica, mas, no entanto, foi um filme que nasceu completamente desacreditado, sem que ninguém se dispusesse a financiá-lo.

Ao constatarmos que o brotar inesperado de tanta luz intensificou as cores do drama vivido longe das câmeras, ficou evidente que teríamos que ouvir seu realizador, Fernando Meirelles. Para nossa alegria, uma ligação foi suficiente para termos nosso encontro com o Fernando agendado. Estávamos ansiosos. Fernando escolheu a parte de cima de um café em Ipanema e lá estávamos no dia e na hora marcada.

Quando Fernando chegou, sentou-se na minha frente, liguei o gravador e a primeira coisa que ele disse foi: “Eu precisava falar”.

Foram duas horas de um desabafo ininterrupto. As coisas que ouvi nesta entrevista com a extensão de um longa metragem, transformaram tudo o que eu havia aprendido sobre cinema até aquele momento e influenciaram de forma decisiva minha jornada dali pra frente. Trato aquela gravação como um tesouro que até hoje mantenho guardado a sete chaves.

Na época, concluímos o trabalho e fomos aprovados pela FGV. Alguns anos mais tarde, quando coordenava o curso de Cinema e Mídias Digitais do IESB, arrisquei convidar o Fernando para um encontro, desta vez, com mais de trezentos alunos e jovens realizadores. Ele foi. Nos olhamos e pude ouvir ele me dizer: “Eu precisava falar”.

 

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