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23.04.2020

Pioneiros da agricultura no DF relembram início na capital; veja histórias

Produtor de planaltina editada família Pioneiros da agricultura no DF relembram início na capital; veja histórias

Vindo de Atibaia, município de São Paulo, o produtor Fábio Harada, 59 anos, está em Brasília desde 1974. Em 1977, passou a viver com a família em definitivo na região de Brazlândia. Quando chegaram, foram logo plantando o que antes cultivavam em Atibaia: couve-flor, beterraba, acelga, bardana, berinjela. No entanto, na hora de comercializar, descobriram que em Brasília muitos desconheciam parte do que plantavam.

“Quando mudamos de São Paulo para cá, a gente não se atentou a esse fato. Aqui o que mais se consumia era chuchu, mandioca. Até morango a gente só vendia no Plano Piloto. Morango era consumido somente pela classe A. As pessoas não conheciam e por isso não consumiam o que a gente produzia. Era muita falta de informação.”

De acordo com ele, Brazlândia naquela época carecia de infraestrutura básica. Faltavam energia, água, escola e rodovias. “Na época, a gente só ouvia rádio AM”, afirmou. “Hoje, [para fazer] qualquer mudança de cultivo, a gente pesquisa antes. Naquela época só não quebramos porque já éramos quebrados”, ri. “Hoje, se a gente fizer isso a gente não levanta mais não.”

Segundo Harada, seus pais vieram para a Brasília pensando apenas no clima e na altitude, que favorecem alguns cultivos. Na época, imaginavam que era só adubar como faziam em São Paulo. “Aqui era tudo diferente, tanto a região como o clima, os hábitos alimentares. Apanhamos muito. Uma coisa fez muita diferença, a assistência técnica que recebemos aqui, que foi muito maior do que a gente recebia lá”, conta.

“No início, tinha pouca informação sobre o cerrado. Achávamos que o cerrado não prestava. Para desbravar, perdemos algumas safras”, conta. No começo, o cultivo era de hortaliças e morango, mas hoje a família se dedica exclusivamente ao plantio de goiaba e ao processamento em sua agroindústria de polpas. “A goiaba é uma fruta perene”, justifica.

Para ele, o trabalho da Emater-DF, que foi também se aperfeiçoando – a empresa completou 42 anos em abril –, foi fundamental no processo. “Com a Emater, começamos a ter mais informações científicas, como de correção de solo, uso de matéria orgânica. A gente tem assistência desde o primeiro ano que foi criada a Emater”, ressalta Harada, que, apesar de já ter atravessado várias crises e de ainda existir muitas dificuldades a serem superadas, diz que, de lá até aqui, muitas coisas mudaram para melhor.

“Agora a gente tem mais facilidade de informações e de tecnologia. A assistência técnica está mais versátil e com isso a gente consegue mudar de cultura com maior rapidez. Na área produtiva, Brasília tem mais consumo. Se o governo não atrapalhar, a gente tem condição de produzir em grande quantidade e qualidade”, afirma.

Do Rio Grande do Sul para a capital do país Produtor no núcleo rural Córrego do Atoleiro, em Planaltina, Avaldir Denker, 69 anos, veio de Três de Maio, município do Rio Grande do Sul, em julho de 1984. A expectativa era expandir os negócios, ter mais terras para plantar e, consequentemente, melhorar de vida. Ele garante que tinha um pouco do desejo de se “aventurar”. Logo que chegou, conseguiu a terra e começou a plantar arroz de sequeiro, que é o cultivo do grão mais resistente a solos ácidos, além de soja e feijão.

Para ele, a única pendência é a regularização da terra, o que permitirá fazer financiamentos para investir em maquinários para a propriedade. “Naquele tempo ainda financiava um pouco mais sem documento e foi o que me permitiu crescer um pouco, mas agora já não financia”, lamenta. “Mas sinto que valeu a pena demais a vinda para Brasília. Se eu tivesse lá, talvez eu não tinha o que tenho e nem os meus filhos. Eu não posso me queixar. Agradeço muito o povo aqui de Brasília, sempre fui muito bem recebido. Sempre recebi apoio de órgãos como a Emater, onde todo mundo me conhece”, comemora.

Orgulhoso, ele conta que tem três filhos e que todos seguiram no ramo da agricultura. O mais novo, Marcelo Denker, 30 anos, é engenheiro agrônomo e em 15 estufas utiliza 3 hectares da terra do pai no cultivo de hortaliças pelo sistema hidropônico. Os outros dois filhos estão na lavoura e apostam no cultivo de grãos em 500 hectares de terra arrendadas na região de Planaltina.

“Nasci aqui em Brasília e não sei das condições que eram antes. Meus irmãos já cultivam grãos há anos e têm uma estrutura boa. Eu acredito que muito se deve a essa região e essa decisão do meu pai de vir para Brasília”, diz Marcelo Denke.

Avaldir Denker, apesar de deixar toda a produção sob o comando dos filhos, hoje cultiva soja e milho safrinha. A comercialização é feita por uma cooperativa do Rio Preto e outra parte entregue em armazéns de Formosa (GO). “A convivência em Brasília é muito boa. Tudo que você tem para vender, tem comércio que compra. Tem comércio para tudo. Se quiser vender uma dúzia de ovos, você sai na rua em Planaltina e vende. Disso as pessoas não podem se queixar”, aponta.

Produção nipônica

No Brasil desde os 5 anos de idade, o japonês Yukio Yamagata, que hoje está com 66 anos, conta ter vindo à capital por volta de 1970, junto com o pai. Na época, por meio do Incra, a família conseguiu um terreno em Brazlândia, onde ele vive até hoje.

Na década de 1960, produtores de origem nipônica foram convidadas pelo então presidente Juscelino Kubistchek para tornar Brasília autossustentável e formar o cinturão agrícola ao redor da capital. Já fazia parte dos planos do presidente desenvolver a agricultura na região.

“No começo era difícil até para ir à escola. Caminhava 8 km de estrada de chão. A gente acordava às 5 horas da manhã e meu pai me levava até a metade do caminho, até o dia clarear. Hoje, em algumas áreas, têm muita facilidade, o ônibus passa até na porta. Mas foi bom, com sacrifícios a gente conseguiu muita coisa”, conta Yamagata.

Com quatro filhos, atualmente ele cultiva abacate, goiaba e limão. No entanto, até 2000 a produção no local era de hortaliças. O produtor conta ter cultivado até morango, mas abandonou a cultura devido ao trabalho e atenção demandada pela fruta. Um dos filhos já tem sua própria terra e também virou produtor. Para ele, o cultivo das frutas tem dado certo, assim como sua vinda para a capital.

Em 2019, a produção de abacate, de acordo com o Valor Bruto da Produção aferido pela Emater, fechou em pouco mais de R$ 18 milhões, goiaba em R$ 25 milhões e limão em R$ 8 milhões. O Valor Bruto da Produção é um indicador conjuntural que demonstra o desempenho das safras agrícola e pecuária do Distrito Federal. O VBP retrata a produção agropecuária no ano e estima o faturamento bruto dentro das atividades produtivas, na propriedade.

Zona rural ocupa 70% do DF

Com 578 mil hectares, o Distrito Federal tem uma área rural que representa 70% do seu território, 404 mil hectares. Desse total de área rural, 347 mil são próprios para a agricultura e pecuária. No último ano, em 2019, o Valor Bruto de Produção (VBP) da capital fechou em R$ 2,907 bilhões. Os números mostram que a aposta do então presidente Juscelino Kubitschek, na construção de Brasília, deu certo. Na época, pouco antes de 1960, Kubstichek incentivou a vinda de famílias de japoneses para produzir em Brasília, terra de cerrado difícil de cultivar.

Hoje o cenário é outro e a capital do país mostra que tem vocação agrícola. As maiores produções estão em Planaltina, no Paranoá e em Brazlândia. Atualmente, quase todas as regiões administrativas são produtoras de alimentos e a agricultura do DF se destaca em diversos aspectos, inclusive no manejo sustentável. De acordo com dados do VBP de 2019, a produção orgânica no DF vem crescendo e já ocupa uma área de 466,629 hectares.

Diante desse cenário, a presidente da Emater-DF, Denise Fonseca, acredita que o Distrito Federal ainda possui muito espaço a ser ocupado com produtos que vão alavancar cada vez mais os dados da agropecuária do DF, melhorando a vida das pessoas no campo, gerando renda, emprego e dignidade. Com a ajuda de parceiros e das políticas públicas do governo, a Emater-DF presta assistência técnica e extensão rural a mais de 11 mil produtores do DF.

“Eu sou muito grata a esta capital e a tudo que construí aqui. Como presidente da empresa e primeira mulher no comando, quero muito poder contribuir com o campo, com as pessoas que vivem nessas áreas rurais e ajudar a tornar o Distrito Federal autossuficiente na produção de alimentos”, destacou.

De acordo com dados da Ceasa-DF, em março deste ano, das 30 mil toneladas de alimentos comercializados no local, 22% (6,7 mil toneladas), foram produzidas no Distrito Federal, grande parte por pequenos produtores da região. O saldo é puxado por frutas nacionais e hortaliças folhosas e raízes.

http://www.emater.df.gov.br/pioneiros-da-agricultura-no-df-relembram-inicio-na-capital-veja-historias/

 

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