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15.10.2020

Pureza na tela, por Renato Barbieri

%name Pureza na tela, por Renato BarbieriFoto de Renato Barbieri/Divulgação com Dira Paes e Pureza Lopes Loyola

“Sentir é questão de pele”, diz poeticamente Gilberto Gil em sua genial canção “Aqui e Agora”. António Damásio, o grande neurocientista português, autor do best seller “O Erro de Descartes” e diretor do Brain and Criativity Institute, da USC – Universidade do Sul da Califórnia, expandiu o conceito e nos ensina que “todo corpo vivo é senciente e, portanto, dotado de sentimentos, sensibilidade, inteligência e… consciência”. Isso vale para uma bactéria ou célula, passando por qualquer inseto, animal, arbusto ou árvore e chegando a nós, o Sapiens. Através de um enorme equívoco da mentalidade Ocidental (que se tornou hegemônica no mundo nos últimos séculos), foi reputada à nossa espécie a “exclusividade” desses atributos fantásticos que são, na realidade, atributos da Vida, de todo e qualquer corpo vivo! É importante frisar que esse conceito de Damásio é científico (não uma simples opinião ou insight pessoal deste cineasta), demonstrado por evidências científicas e que coloca em xeque-mate a mentalidade antropocêntrica.

Pois bem, e o que PUREZA tem a ver com esse raciocínio? O filme tem seu nome e sua história emprestados da personagem real Pureza Lopes Loyola, uma maranhense roceira “simples”, fazedora de tijolos em sua pequena olaria familiar na cidade de Bacabal, cujo filho, em busca de melhores oportunidades de ganho, resolve partir rumo ao Sul do Pará para trabalhar no garimpo. No percurso, Abel acaba sendo aliciado para o trabalho escravo contemporâneo em uma grande fazenda, atraído por falsas promessas de salário e “bom emprego”.

O filme, encarnado por Dira Paes no papel-título, narra a jornada dessa grande heroína brasileira, mulher imbuída de um forte sentimento de Justiça e tendo como suas armas a inteligência, a coragem e a determinação inabalável de ter seu filho de volta, vivo ou morto. E foi observando Dona Pureza, primeiro nas fases de pesquisa e roteiro e depois nas filmagens, que descobri algumas “chaves de percepção” que considero determinantes na estrutura do meu pensamento intelectual e artístico, de que ela é dotada de uma aguda e certeira inteligência que não provém da escola e dos estudos, mas, sim, da própria Vida, exatamente como na abordagem tão bem estudada e defendida por Damásio. Só por essa descoberta, já teria valido a pena ter feito PUREZA.

Mas queríamos mais! Desejávamos fazer um filme que tocasse o sentimento e a inteligência da sociedade brasileira para a secular chaga da escravidão em nosso país. Isso porque, para muitos, a escravidão teria acabado em maio de 1888… mas, não! No dia 14 de maio daquele mesmo ano, teria dado início a escravidão contemporânea, que tragicamente persiste até os dias de hoje. Segundo a organização internacional Walk Free, existem no Brasil nesse momento aproximadamente 369 mil trabalhadores e trabalhadoras vivendo como escravos. E, segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, existem no mundo 40,3 milhões de pessoas vivendo sob o regime da servidão. Como disse certa vez o distribuidor Bruno Wainer, após uma sessão do filme: “isso não é uma questão de direita e esquerda, mas, sim, uma questão de civilização e barbárie”.

Realizar um filme de ficção é, por si só, uma grande jornada no espaço e no tempo. Realizar PUREZA nos exigiu 12 anos de trabalho, entre o início da pesquisa, em dezembro de 2007, até a primeira projeção pública, em dezembro de 2019, no Festival do Rio. PUREZA “rodou” um ciclo completo do zodíaco chinês para se fazer filme e nas últimas semanas conquistou o prêmio de “Melhor Filme – Júri Popular” do 24º FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul, e o prêmio de “Melhor Filme”, também pelo Júri Popular, no 22º Rencontres du Cinema Sud-Américain, em Marselha, na França. Para todos nós envolvidos na realização do filme (elenco, equipe, apoiadores e patrocinadores), é motivo de muito orgulho esses prêmios conferidos pelos públicos dos países do Mercosul e da França. Além disso, o filme acaba de ganhar o “Prêmio Menção Honrosa” do Júri Oficial no 34º Washington DC International Film Festival, na Mostra Justice Matters.

Realizar PUREZA foi uma jornada. E meu grande parceiro nesses anos todos – do desenvolvimento do projeto às filmagens em Marabá e Brasília, e depois na finalização e lançamento -, é o produtor brasiliense Marcus Ligocki Jr. Juntos, também assinamos o roteiro. A afinidade entre Marcus e eu nesses anos todos de PUREZA foram “atravessadas” por milhares de decisões e, o que é mais incrível! – tudo dentro da mais absoluta sinergia de propósitos. Por essa e por outras, considero o Marcus um irmão e um dos grandes profissionais do Cinema no Brasil. Só assistindo ao filme para entender a realidade do que aqui afirmo. Outro vetor definitivo para o resultado final de PUREZA está na grande atriz Dira Paes. O que dizer de Dira como Pureza? Digo apenas que o filme foi realizado para que o talento e o engajamento abolicionista de Dira pudessem carregar a sua essência: pureza.

O elenco todo me deixa muito orgulhoso, tanto pela atuação dedicada e talentosa de atrizes e atores formidáveis (muitos deles de Brasília e Belém), mas também por termos conseguido imprimir na tela a cara plural e mestiça do povo brasileiro, expressas por Mariana Nunes, Sérgio Sartório, Flávio Bauraqui, Cláudio Barros, Alberto Silva Neto, João Gott, Guto Galvão, Jefferson Mendes, Gregório Benevides, Goretti Ribeiro em um grande elenco, só pra citar alguns nomes…

Um filme se faz com muitas mãos! PUREZA só se fez possível graças à ação conjunta e coordenada de um sem-número de pessoas (o crédito final tem 7 minutos!), e quero expressar a imensa gratidão que tenho pela dedicação, parceria e engajamento de uma equipe maravilhosa, liderada por chefes de departamento que, em sua grande maioria, poderiam (e poderão!) estar no Set ou na Pós de qualquer cinematografia mundial, por serem pessoas incrivelmente talentosas e profissionais. Para celebrar toda a dedicada equipe de PUREZA, destaco a grande cumplicidade de Felipe Reinheimer na direção de fotografia, Zé Luca na direção de arte, Johnny Catrolli na produção de locação em Marabá, Mariangela Furtado na direção de produção, Marcelo Moraes na montagem e Kevin Riepl na música, que soube entregar com maestria as sonoridades que eu tanto necessitava para narrar a história de Pureza. O grande motor dessa ação coletiva de fazer um filme de relevância social foi a causa abolicionista que, pouco a pouco, foi “contaminando” a todos os envolvidos. A equipe inteira compreendeu que estávamos diante de uma real missão abolicionista e cercada de abolicionistas contemporâneos reais por todos os lados. Isso porque contamos com a engenharia social e o apoio de uma formidável “rede abolicionista”, formada por mais de 20 organizações abolicionistas nacionais e internacionais, das quais destacaria o desempenho impagável de Frei Xavier Plassat (CPT), do Juiz do Trabalho Jônatas Andrade (TRT8), do então Procurador-Geral do Trabalho Luís Camargo de Melo (MPT), da ativista social Rogenir Costa (CRS), do combativo jornalista Leonardo Sakamoto (Repórter Brasil) e dos Auditores do Trabalho Walderez Monte e Marcelo Gonçalves Campos (MTE), só para ficar em alguns nomes, já que é enorme a lista de homens e mulheres que trabalham com convicção pela grande causa abolicionista e que, através de suas instituições, apoiaram o filme de forma decisiva. Agentes humanistas da Sociedade Civil trabalhando em sinergia com agentes humanistas da estrutura do Estado, cuja causa abolicionista contou com a participação decisiva de Dona Pureza. PUREZA é, portanto, o resultado desse grande esforço coletivo da causa abolicionista.

O filme não teria sido possível, se não fossem as oportunidades criadas pelos editais do FAC/DF, do BNDES e da ANCINE/FSA, bem como pela Justiça do Trabalho representada pelo MPT e pelo TRT8.

Não poderia deixar de destacar ainda quatro parcerias essenciais: a Ideia Original do filme que nos foi apresentada pelo fotógrafo Hugo Santarém; o suporte à Pesquisa e ao Roteiro que tivemos por parte do cineasta e produtor Paulo Morelli; contarmos com o diretor de fotografia internacional Affonso Beato, que nos honra como Produtor Associado; e a participação do distribuidor Bruno Wainer, que desde a primeira hora apostou em PUREZA como um filme que precisava ser realizado.

Os sentimentos são muitos e não caberiam nesse espaço, tantas foram as sensibilidades dos parceiros leais e decisivos para chegarmos ao resultado final de PUREZA. Concluo esse artigo apoiado pela inteligência nata de Dona Pureza, pelo pensamento científico de António Damásio e parafraseando a poesia de Gilberto Gil: sentir é questão de Vida.

Texto e Foto: Renato Barbieri

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