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16.08.2019

UM DIA DE SPIELBERG

POST 13 MJ SPIELBERG UM DIA DE SPIELBERG

Autor: MARCUS LIGOCKI JR

Quando percebi que não conseguiria fugir do meu destino, resolvi me transferir de Brasília para o Rio de Janeiro por uns meses para estudar com alguns mestres do roteiro, da direção e da produção e entender onde eu deveria me encaixar.

Era o final dos anos 90, eu já havia lido muitos livros sobre técnicas de roteiro e até já havia escrito um longa-metragem, mas nunca haviam filmado nada do que havia escrito. Ainda assim, resolvi colocar no meio da minha bagagem um pacote de cartões de visitas com os dizeres: Marcus Ligocki Jr – Roteirista. Não tinha nenhuma reserva financeira e sabia que logo precisaria encontrar uma oportunidade de trabalho.

Minha primeira parada foi no Festival do Rio. Nos corredores do Copacabana Palace, Walter Salles Jr. repercutia o sucesso do recém lançado “Central do Brasil” e após minha participação em uma oficina com o roteirista e professor da UCLA, Richard Walter, me dirigi para uma palestra que a Iona de Macedo estava fazendo, como vice-presidente da Columbia Pictures.

No caminho da palestra, parei diante da grande produtora Lucy Barreto, me apresentei e entreguei meu primeiro cartão de roteirista que foi acolhido com um sorriso encorajador. Depois, sentado em um auditório lotado, acompanhei atentamente a exposição da Iona que se encerrou com uma explosão de aplausos. Levantei e aplaudi com o mesmo entusiasmo. Vendo que ela descia do palco e caminhava pelo corredor em minha direção, não tive dúvidas. Me coloquei diante da vice-presidente da Columbia e, tentando ser simpático, entreguei meu cartão de roteirista.

Delicadamente, Iona olhou para o cartão e comentou “Ah, você é roteirista? Nós vamos precisar de roteiristas”. Tirou de sua bolsa o cartão de uma produtora executiva e me orientou. “Ligue para ela. Diga que falou comigo”. Antes que eu pudesse reagir, Iona seguiu o seu caminho e desapareceu no meio das pessoas que se retiravam da sala.

Nos dias seguintes, aquele cartão ficou pulsando em minha mão até que eu resolvi ligar. “Oi, eu sou o Marcus, a Iona pediu para eu te ligar”. Resposta: “Oi Marcus, tá tudo meio corrido por aqui e eu não posso te atender agora. Você pode me ligar amanhã?” É claro que eu podia. No dia seguinte a resposta foi a mesma. E no seguinte, igual. As ligações e a respostas se repetiram por trinta dias seguidos, até que uma porta se abriu. “Está bem, Marcus, o que você quer?” “Eu sou roteirista” “Ah, ok. Amanhã às 18h teremos uma reunião em Copacabana. Você pode comparecer?” Confirmei na hora, agendamos, mas antes de desligar ele perguntou “você escreve comédia, não é?” Depois de um breve silêncio, respondi “claro”.

Estava agendado e agora? Peguei um caderno, uma caneta e me dirigi a um boteco na Gávea, próximo de onde eu estava hospedado. Pedi um chopp ao garçom e enquanto eu observava as pessoas passando, escrevi sinopses de três histórias cômicas. Ao terminar a última, fui para casa.

Amanheci mais ansioso do que o habitual. A reunião que aconteceria às 18h daquele dia poderia ser a grande oportunidade da minha vida. O início perfeito para alguém que estava mudando de carreira e ainda não sabia muito bem o que fazer. À medida que as horas passavam, minha ansiedade aumentava. Até que chegou a hora de me arrumar para sair. Quando me olhei no espelho, tive uma ideia. Fui até o armário e peguei um cabide com uma pele imaginária do grande Steven Spielberg.  Na frente do espelho, lentamente vesti o personagem. Em alguns minutos, já sentia a ansiedade diminuir. Estava na hora do grande encontro.

Cheguei em um hotel, entrei no elevador e subi para o quarto em que a reunião estava marcada. Quando entrei haviam quatro pessoas me esperando, a Iona, o Márcio Maita, diretor da Band e dois produtores. Sentei na roda e quando perguntaram os meus propósitos, abri o coração e contei tudo. Falei que era um roteirista sem experiência em busca de oportunidade, que já tinha tido muitas experiências interessantes em outras áreas, as quais relatei, e que na noite anterior havia escrito três sinopses.

Quando terminei de falar, entreguei os textos nas mãos dos meus entrevistadores. Enquanto liam, o silencio tomou conta do ambiente. Mas eu já não estava nervoso. Terminaram de ler e me pediram uns minutos. Ao final do período, Iona anunciou “Marcus você foi uma unanimidade. Está contratado!”.

Uau! Abri um sorriso, agradeci e fui embora. Quando a porta do elevador se fechou, explodi em alegria. Pulava tanto que o elevador quase caiu. Eu agora fazia parte da equipe que escreveria as primeiras adaptações de SITCOMs americanas para a TV Brasileira. Foi um período rico, de muito aprendizado e o Spielberg até hoje não sabe o quanto me ajudou. Risos.

 

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